Apucarana, 17 de novembro de 1998.
Querido Miguel,
Sua receita chegou.
O bolo ficou bom. Helena comeu duas fatias ainda mornas e
disse que era o melhor que eu já tinha feito. Crianças talvez sejam
generosas demais com as mães, mas resolvi acreditar nela.
Tenho tentado fazer isso ultimamente: acreditar. Nem sempre
consigo.
Demorei para escrever esta carta. Escrevi pedaços dela em
folhas diferentes. Rasguei alguns. Risquei outros até furar o papel.
Em uma versão falei demais. Em outra, não disse nada. Talvez
esta seja apenas a versão que cansou primeiro de ser reescrita.
Você disse que passa a vida tentando provar que merece
ser amado. Pensei muito nisso. Talvez sejamos
mesmo dois tolos muito bem treinados,
como escreveu. Só que ultimamente
tenho invejado sua necessidade de ser útil.
Eu tenho saudade de querer. Não de
querer grandes coisas. Tenho saudade de
acordar querendo café. De esperar pelo domingo.
De ouvir uma música e querer ouvi-
la novamente. De comprar alguma coisa
para o mês seguinte sem sentir que o mês
seguinte está longe demais.
Outro dia levei Helena para tomar sorvete.
A praça estava cheia. Crianças corriam,
gente conversava, alguém ria alto
numa mesa ao lado. Helena escolheu chocolate.
Eu escolhi o de sempre. E fiquei
olhando para todas aquelas pessoas vivendo. O sorvete encostava
nos meus lábios e eu sabia que estava gelado, mas parecia
que meu corpo tinha se esquecido de me contar alguma coisa.
É estranho, Miguel. A gente imagina que deixar de sentir seja
uma coisa barulhenta. Não é. Pode acontecer no centro da cidade,
no meio de uma multidão, segurando a mão da própria filha. Talvez
algumas pessoas desapareçam muito antes de alguém perceber
que estão faltando. Não se assuste. Ainda estou aqui.
Trabalho. Faço jantar. Pago contas. Rio quando alguma coisa
é engraçada. Helena continua me abraçando daquele jeito que
lhe contei, como se meus braços fossem o lugar mais seguro do
mundo.
Por ela, levanto. Por ela, lembro que amanhã precisa existir,
mesmo quando não consigo sentir nenhuma curiosidade por ele.
Mas estou cansada, Miguel. E não é o tipo de cansaço que
dormir resolve.
Tenho recusado convites. Inventado compromissos. Às vezes
alguém pergunta se quero conversar e digo que não. Depois fico
esperando que pergunte novamente.
É injusto, eu sei. Peço distância e sofro quando ela vem. Talvez
eu tenha passado tanto tempo com medo de perder as pessoas
que comecei a me despedir delas antes que fossem embora.
Agradeço demais. Peço desculpas demais. Guardo demais.
Há dias em que olho para quem amo e sinto saudade antes
mesmo de perder.
Você escreveu que não sabe como me
tirar deste lugar, mas poderia sentar um
pouco aqui.
Miguel... Acho que talvez esteja na hora
de eu admitir que gostaria que alguém
sentasse. Não precisa resolver nada.
Talvez apenas me escreva logo. Ou me
diga, de algum jeito, que ainda há coisas
que valem a pena esperar. Tenho precisado
que alguém me lembre disso.
E quero que um dia conheça Helena.
Ela ainda é pequena, mas já sabe seu
nome por causa do bolo. Prometi a
mim mesma que mandaria uma fotografia
dela. Só preciso encontrar um dia
em que estejamos as duas bonitas ao
mesmo tempo.
Talvez domingo.
Veja só.
Ainda faço planos para domingo.
Com carinho,
Clarice.
P.S.: Esta carta quase não sobreviveu às outras versões dela.
Se algum dia vier me visitar, esconda os papéis da casa. Tenho a
péssima mania de deixar meus fracassos de escrita espalhados
por aí.
Epístola ficcional sobre dores emocionais invisíveis. Se este
texto tocar uma ferida sua, procure ajuda. CVV: 188.