Em poucos dias, o calendário nos convidou a celebrar duas figuras que costumamos cercar de promessas: a criança, no dia 12 de outubro, e o professor, no dia 15. Uma representa, para muitos, o futuro que desejamos; o outro, a presença adulta que participa de sua formação. Mas talvez a proximidade dessas datas nos convide a olhar para além das homenagens e perguntar, com alguma seriedade: o que estamos oferecendo às crianças de hoje e em que condições pedimos que os professores caminhem ao lado delas?
O Dia das Crianças costuma chegar acompanhado de presentes, brincadeiras e declarações de carinho. Tudo isso tem seu valor. Mas uma infância não se protege apenas por algumas horas de festa, nem se respeita somente quando a criança recebe aquilo que pediu. Respeitá-la é reconhecer que ela não é um projeto de adulto, uma promessa distante ou uma preparação para a vida que virá. A criança está vivendo agora. Tem dúvidas, medos, desejos e uma maneira própria de compreender o mundo. O futuro começa nela, mas não pode ser a única razão para que nos importemos com seu presente.
Poucos dias depois, celebramos os professores. Recebemos mensagens, homenagens e palavras generosas sobre a importância de ensinar. Também elas têm seu valor. O problema surge quando a homenagem parece suficiente, como se o reconhecimento simbólico pudesse substituir o respeito cotidiano, o tempo necessário para preparar uma aula, a escuta, a formação e as condições dignas de trabalho. Há uma contradição em chamar o professor de essencial e, ao mesmo tempo, tratar como natural que ele enfrente sozinho desafios que pertencem a toda a sociedade.
O professor não é herói, embora muitas vezes usemos essa palavra para expressar gratidão. Heróis, em geral, são aqueles de quem se espera que suportem o impossível sem reclamar; professores são profissionais que trabalham com conhecimento, presença e responsabilidade. Seu ofício pode transformar trajetórias, mas não deveria depender de sacrifício permanente. Uma escola pode acolher, ensinar, observar e abrir caminhos. Não pode, sozinha, reparar todas as desigualdades, curar todas as ausências ou responder a cada violência que atravessa a vida de uma criança.
Ainda assim, há algo profundamente inspirador no encontro entre quem ensina e quem aprende. Uma pergunta feita em sala, uma explicação que finalmente alcança alguém, um adulto que leva a sério aquilo que a criança diz: gestos assim talvez não mudem o mundo de uma vez, mas podem mudar a maneira como alguém passa a habitá-lo. É nesse espaço, feito de conhecimento e vínculo, que a criança encontra não apenas respostas, mas a possibilidade de formular perguntas melhores.
Por isso, celebrar crianças e professores na mesma semana não deveria ser apenas uma coincidência bonita do calendário. Deveria nos levar a reconhecer que a infância e a educação não são assuntos separados, nem responsabilidades que possam ser entregues exclusivamente às famílias ou à escola. Uma sociedade que deseja cuidar de suas crianças precisa também cuidar das pessoas que convivem com elas, ensinando, orientando e ajudando-as a interpretar o mundo.
Talvez a pergunta mais difícil não seja o que queremos que as crianças se tornem, mas que mundo estamos construindo enquanto elas crescem. E talvez homenagear os professores de modo verdadeiro comece quando deixamos de esperar que eles, sozinhos, façam esse mundo caber dentro de uma sala de aula.
Entre o presente dado à criança e a mensagem enviada ao professor, permanece uma tarefa que não cabe em uma data: levar a sério aquilo que dizemos valorizar. Porque proteger a infância é cuidar do presente de quem cresce; reconhecer o professor é compreender que ninguém deveria ser deixado sozinho diante de uma responsabilidade tão grande.
Como professor, escrevo com esperança, mas sem ingenuidade: acredito na força de uma aula e sei que ela floresce melhor quando a sociedade também assume sua parte.