A experiência de ter um filho em casa

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A experiência de ter um filho em casa

Você teria coragem de ter seu filho em casa? A fotógrafa e artesã Dayane Aline Vecchi, 23 anos, de Apucarana, não só teve o primogênito Caiuá, de 3 meses, como realizou um sonho antigo. “Tudo começou no meu nascimento, quando minha mãe Rosemar, com apenas 16 anos, ficou grávida. O parto aconteceu em ambiente hospitalar, em Curitiba, e ela sofreu diversos procedimentos, que hoje sabemos ser violência obstétrica”, conta. 

Entre os procedimentos citados por Dayane, está episiotomia, a manobra de Kristeller, a posição litotômica, uso desnecessário do fórceps. “Enfim, uma desumanização total. Nasci cheia de hematomas, com as clavículas quebradas e, por horas, fiquei separada da minha mãe, nem tive o contato pele a pele de imediato, que hoje sabemos ser fundamental para o vínculo mãe e filho”, explica. 

Diante de relatos de violência contados pela mãe, Dayane, desde o momento que entendeu o que havia acontecido, se questionava sobre os “porquês” da vida. “Sempre que alguém me perguntava o que seria quando crescer, eu dizia que queria ser parteira. Essa grande inspiração também veio das histórias que minha vó me contava sobre partos em casa, realizados por minha bisa, que era parteira. Eu ficava fascinada por esse mundo oculto, misterioso que era o grande mistério de dar à luz a um ser”, conta. 
Em janeiro de 2018, a fotógrafo conta que sentiu o chamado para fazer um curso de doula, assistente de parto, sem necessariamente formação médica, que acompanha a gestante durante o período da gestação até os primeiros meses após o parto, com foco no bem-estar da mulher. “Fiz o curso e fiquei encantada, porém, preocupada com o sistema obstétrico brasileiro, senti o trauma do meu nascimento pedindo cura. A cada dia de curso era mais forte a minha missão em ajudar as mulheres em um parto humanizado”, relata. 
Para entender melhor o universo, Dayane achou que teria que passar pela experiência de dar à luz. “Teria que viver este momento para a missão, mostrando que é possível nascer em um ambiente calmo, silencioso, seguro, protetor, acolhedor, que é o nosso lar, claro, tendo uma boa gestação, sendo ela de baixo risco”, recorda. 
Assim que descobriu que estava grávida, a artesã procurou uma equipe de parto domiciliar, formada pelas enfermeiras obstétricas e neonatal Aline Palmonari e Neia Chagas, e pela doula Jessica Scipioni, de Londrina, além de fazer questão da presença e apoio do marido Bruno, que esteve desde ao seu lado desde o início da chegada de Caiuá. “Tive um acompanhamento maravilhoso, me transmitiram muita segurança, força, e foi assim que Caiuá nasceu no aconchego do nosso lar, um parto normal humanizado, abençoado, repleto de amor”, comemora. 
Caiuá nasceu dentro da água, em uma piscina e Dayane diz estar realizada. “Ele nasceu no tempo dele, sem nenhuma intervenção. Veio direto para meus braços, onde ficamos ali por um bom tempo nos conhecendo e nos amando. Um momento de cura que jamais vou esquecer. Momento de muita gratidão por ter quebrado um padrão, um mito, uma violência, uma tristeza”, 
reforça. 

Parto Domiciliar
Segundo o pediatra Luiz Henrique Veloso, a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (Figo) recomenda que uma mulher dê à luz no local em que se sinta segura e no nível mais periférico em que a assistência adequada for viável e segura. Para muitas, a escolha cai sobre o parto domiciliar. 
Luiz Henrique explica que na visão das sociedades de pediatria de todo o mundo um fato é que os nascimentos que ocorrem dentro dos hospitais são capazes de assegurar as melhores chances e condições de cuidado adequado à vida e à saúde da parturiente e do recém-nascido, sendo os mais seguros e que causam menor chances de evoluir com sequelas definitivas ou até o óbito dos recém-nascidos. 
O médico explica que existe o conhecido “Golden Minute”, que são os primeiros 60 segundos da vida de um recém-nascido, fundamentais para o adequado desenvolvimento de uma criança. “Portanto, se optado pela realização do parto domiciliar, este deve ser conduzido de maneira correta, contando obrigatoriamente com um médico pediatra ou neonatologista capacitados a lidar com eventuais emergências, como por exemplo, um sofrimento fetal agudo ou uma parada cardíaca”, ressalta. 
Além disso, segundo o pediatra, é fundamental que sejam preparados e estejam a disposição vários materiais de auxílio para uma Reanimação Neonatal segura (oxigênio, cateter-umbilical, medicações, monitores) e transporte assegurado para uma maternidade/UTI neonatal.

Fotos – Cristiane Paixão e arquivo pessoal